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Palcos enormes, multidões coladas na grade e megaturnês: coisa do passado?

Claudia Assef

05/04/2020 18h27

Uma das coisas que mais têm me feito refletir nesses tempos de enclausuramento são lembranças de grandes shows. Dos melhores da minha vida, nos quais estava de corpo presente, e daqueles inesquecíveis que eu tive a sorte de ver pela TV, como o Queen no Rock in Rio de 1985, uma das lembranças musicais mais fortes que tenho, do alto dos meus 11 anos de idade.

Estamos vivendo um período divisor de águas. A simples tarefa de ir ao supermercado e cruzar com outra pessoa num corredor já faz o coração acelerar e a boca ficar seca. A desconfiança de botar o dedo na maquininha de cartão de crédito para pagar a conta, vem com o pavor de que ali, com certeza, o corona vai te pegar.

Se ir ao mercado se tornou a grande aventura da sociedade, imagina o que aconteceu com o mercado de eventos. Na última sexta (3), o DataSim (núcleo de pesquisa e organização de dados e informações sobre o mercado musical da Semana Internacional de Música de São Paulo), divulgou o resultado da pesquisa Covid-19 – o Impacto no Mercado da Música do Brasil. Segundo o documento, que você pode baixar neste link, mais de 8.000 eventos foram afetados, impactando um público direto na casa de 8 milhões de pessoas e prejuízo estimado em mais de R$ 483 milhões.

Muitas categorias dentro da indústria da economia criativa, especialmente profissionais da música, do audiovisual e do segmento de bares e restaurantes, se mobilizam para pedir ajuda ao governo, que, por enquanto, publicou uma medida provisória que prevê auxílio emergencial de R$ 600 a trabalhadores informais (veja se você se enquadra aqui).

Enquanto isso, como de costume, a sociedade civil se mobiliza como pode, em ações de voluntariado, como arrecadação de cestas básicas , fundos de emergência para pessoas trans, arrecadação para compra de equipamentos para hospitais, entre outras voltadas ao auxílio dos mais necessitados nesse período de Covid-19, diversas delas listadas neste link da ferramenta Vakinha.

HUMANOS MELHORES, EVENTOS MENORES 

No Brasil, estamos entrando na terceira semana de quarentena. Armários já foram arrumados, a casa foi limpa duzentas vezes e o tempo livre, que no começo parecia uma benção, afinal você tinha tanta coisa acumulada para fazer, começa a pesar. Temos tempo. O que não temos é a perspectiva de quando sairemos desse confinamento.

Para quem vive da música, como eu, as incertezas são a nova realidade. Repensar o mercado dos eventos ao vivo é como tentar acertar um dardo na mosca estando a quilômetros de distância do alvo, separados por uma chuva de granizo. Nem Nostradamus conseguiria entender como vai ser a experiência de um show ou festival ao vivo após o coronavírus. O que dá pra saber é que, no médio prazo, cenas de multidões cantando com seus celulares brilhando na escuridão, só em vídeos ou na memória.

Num desses devaneios enquanto limpava um vaso sanitário em casa, num daqueles momentos de crossfit da vida real da faxina, pensei que pode ter terminado na era pré-coronavírus a experiência dos grandes eventos ao vivo. Mesmo com a pandemia controlada, sempre virão outras. E o que foi mais abalado nessa crise, além, claro, da renda e dos empregos? A confiança de estar em público.

Justo agora que, em cidades como São Paulo, que recém-vivera seu maior Carnaval de rua, entre tantas outras aglomerações gratuitas e democráticas, a pandemia veio abalar a maneira como nos relacionamos com os outros. E a primeira reação a tudo isso é manter uma distância segura do desconhecido. Sentimento que sempre foi o que nos atraiu às delícias de nos esfregarmos no povaréu, de abraçar um vizinho de acotovelamento no gargarejo do show quando toca a sua música preferida, de pular junto e em grupo quando a cachaça lhe subir à cabeça. É triste pensar que isso pode ter acabado, mas pelo menos por um bom tempo, é fato que não vai voltar a acontecer.

Entre os muitos grupos de Whatsapp de música e cultura de que faço parte, a pergunta é a mesma: como vai ser quando essa fase passar. As teorias são muitas: eventos menores presenciais complementando uma grade de atrações (pagas ou gratuitas) online é uma das mais faladas. Casas de show de pequeno porte também são uma aposta recorrente, mas precisariam limitar a entrada de público para garantir uma "distância segura" entre as pessoas. Que fase essa de ter que pensar em distância segura, hein, humanidade!

Também durante minhas faxinas, penso que estamos na verdade tendo a chance coletiva de dar um reboot no sistema. De rever o que estamos fazendo aqui, afinal, para que correr tanto, para que acumular tanto, por que fazer eventos tão gigantescos e, principalmente, como podemos seguir adiante sem pensar que tanta gente não tem o comer todos os dias?

Li outro dia um texto do publicitário Nizan Guanaes, escrito da quarentena, isolado, por conta de ter testado positivo para o coronavírus. Ele, homem rico e poderoso, em meio à limpeza de maçanetas, pias, vasos, concluiu que sem uma preocupação real com o coletivo, não vamos sair dessa. Mesmo assintomático, ele resolveu se trancar em casa para não passar o vírus adiante. O fato de ele não ter uma diarista fazendo as coisas por ele me fez ter esperança, ou, mais ainda, desejar que outros tantos ricos e poderosos estivessem passando por uma epifania parecida, cada um limpando suas próprias privadas e doando um pouco de suas fortunas para quem precisa.

A parcela dos 1% mais ricos do mundo detêm mais do dobro da riqueza possuída por 6,9 bilhões de pessoas no mundo, segundo relatório global da organização não-governamental Oxfam publicado em janeiro deste ano. Fico eu aqui na minha quarentena, entre faxinas, planilhas e aulas para as filhas, pensando que esse vírus talvez tenha vindo para mudar a maneira como pensamos, agimos e enxergamos o próximo e isso seria uma proeza tremenda, apesar de tantas mortes e sofrimento.

"No meio do ódio, descobri que havia, dentro de mim, um amor invencível.
No meio das lágrimas, descobri que havia, dentro de mim, um sorriso invencível.
No meio do caos, descobri que havia, dentro de mim, uma calma invencível.
E, finalmente, descobri, no meio de um inverno, que havia dentro de mim, um verão invencível.
E isso faz-me feliz. Porque isso diz-me que não importa a força com que o mundo se atira contra mim, pois dentro de mim, há algo mais forte – algo melhor, empurrando de volta."

Este texto, do escritor e ganhador do Nobel de Literatura Albert Camus, chegou no meu Whatsapp, lido por uma atriz argentina de quarentena em Paris. Achei perfeito. Que esse tempo aparentemente trevoso sirva como segunda chance para todos nós. Que a gente possa fazer um belo gim tônica deste limão!

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.

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