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Algumas lições que a música eletrônica nos ensinou no SP na Rua

Claudia Assef

09/10/2019 18h49

Quem me lê neste minuto deve estar pensando que timing não é meu forte, afinal, escrever sobre um evento que aconteceu no final do mês passado não é bem obedecer ao calor do noticiário. Apesar de já terem corrido quase 10 dias desde o SP na Rua e a Semana de Música Eletrônica, achei importante listar e registrar alguns fatos e pensamentos que levaram um tempo para sedimentar no meu hipotálamo.

1) Música eletrônica para todos os bolsos 

Pra começar, esses dias me reafirmaram a importância da música eletrônica nesta cidade e a certeza de que "o fervo também é luta" (tema de uma das mesas de debates realizadas durante a Semana de Música Eletrônica, aliás). Na noite do SP na Rua, dia 28 de setembro, mais de 50 mil pessoas transformaram as ruas do centro da cidade em pista de dança, distribuídas em pontos de festas gratuitas que tocavam de reggae/dub a techno. Na mesma noite, não muito longe do Centro, a festa alemã Photon, realizada em parceria com o núcleo paulistano Tantsa, reuniu 4.200 pessoas dançando ao som de Ben Klock, Marcel Dettmann, FJAAK live, Eli IwasaAmanda Mussi. Som, produção e cenografia de qualidade a ingressos entre R$ 60 e 180. Música eletrônica em São Paulo é para todos os gostos e bolso.

Público que lotou a Photon, festa fechada que aconteceu no mesmo dia do SP na Rua

2) Gêneros da moda? Em SP não tem essa

Aproveitando para falar sobre gêneros dentro da música de pista, foi lindo ver q força de dois gêneros que, apesar de não estarem na mídia, vão muitíssimo bem, obrigada. Durante a Semana de Música Eletrônica, foi uma surpresa ótima ver a festa Trance de Rua LOTANDO a Vitrine da Dança, no Centro Cultural Olido, em plena quarta-feira final de tarde. O trance, um dos gêneros da música de pista mais cultuados nos anos 90, continua vivíssimo! Outra boa surpresa foi ver a Forbass & Tendence, festa de drum'n'bass que também teve uma edição dentro da Semana, com lotação esgotada, e fãs dançando aos pulos o set de um de seus ícones, o DJ Andy.

Abaixo, o público cantando junto na Forbass & Tendence 

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3) A volta dos Cybermanos 

A galera que curte as festas de hoje prestigiou a abertura da exposição Cybermanos, de Fabio Mergulhão

Foi durante a abertura da exposição Cybermanos, do fotógrafo Fabio Mergulhão, que me deu esse clique. Quem viveu a noite de São Paulo intensamente do final dos anos 90 até o início dos anos 2000 se lembra dessa turma que cultuava DJs como Mimi e Erick Caramelo e se vestia como o ídolo Keith Flint, do Prodigy. Era uma galera visionária, que exercia sua voz através de suas roupas, músicas e atitude. Quem sai hoje e frequenta festas como Capslock, Mamba Negra e tantas outras verá um paralelo entre a galera que sai montada hoje e os cybermanos dos anos 90/2000. A mesma inquietação, a mesma vontade de protestar contra o status quo (que, aliás, todo mundo deveria ter a essa altura), aliada, nesta fase atual, a uma libertação total quanto a questões sobre gênero. Como escreveu o próprio Mergulhão no texto de abertura de sua mostra, São Paulo é uma cidade cybermana. Olhai por nós, Keith Flint.

4) Música eletrônica de guerrilha 

Um dos palcos mais movimentados do SP na Rua foi o da Vampire Haus (que reuniu também as festas Techno de Rua e Jaca + Ghost). Montado de frente para o Teatro Municipal, foi dali que a DJ e produtora Suzana Loki fez seu discurso inflamado diante de dançarinos enlouquecidos. Ela mostra e faz parte de um grupo gigantesco de pessoas que trabalham incansavelmente pela música eletrônica na cidade, muitas vezes sem sequer conseguirem uma remuneração por isso. É muito amor, gente. Reproduzo um trecho de seu discurso aqui.

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"PARA MIM QDO TEM UM SP NA RUA, MAIS DO QUE QUALQUER COISA, E INDEPENDENTEMENTE DE QQUER COISA, VEJO COMO UMA GRANDE OPORTUNIDADE,  IMPORTANTÍSSIMA. É A HORA QUE OS HOLOFOTES ESTÃO NA NOSSA CARA PARA FALAR DE MANEIRA OFICIALIZADA PARA O PODER PÚBLICO E PÚBLICO EM GERAL QUE A GENTE VIVEEEEE E RESISTE, CUSTE O QUE CUSTAR. VAI ALÉM DO ENTRETENIMENTO SIMPLES. ESTAMOS AQUI HOJE NA FRENTE DO TEATRO PARA CONTAR QUE ESSA NOITE É APENAS MAIS UMA, DENTRE TODO O TRAMPO QUE FAZEMOS TODOS OS OUTROS DIAS DO ANO, MÊS A MÊS, NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS.

E TAMBÉM ANUNCIAR QUE VAMOS CONTINUAR FAZENDO. E QUE NÃO VAMOS DESISTIR NUNCAAAA DA CIDADE. INDEPENDENTE DE GOVERNO, AUTORIDADE, POLÍCIA, LADRÃO. ESTAREMOS SEMPRE AQUI, RESISTINDO. FIREEEEEEE"

5) Performance como forma de arte

Depois de muita luta, a VJ arte foi incorporada na música eletrônica como algo sem o qual fica faltando um pedaço da festa. É chegada a hora de consolidar as performances. No SP na Rua lá estava essa forma de arte, personificada de diversas formas. A arte de performar vai além de vestir um look escandaloso e dançar em cima de "queijos" e praticáveis. A performance hoje traz a alma da festa, seu espírito encarnado na forma de artistas andróginos, que procuram expressar em carne e osso a felicidade, o escapismo, o tapa na cara da segunda-feira que todo mundo (ou boa parte) na pista de dança está sentindo.

Sinta o vrá do leque da performer Valentina Luz 

E aí, qual foi o legado do SP na Rua e da Semana de Música Eletrônica pra você?

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.