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O poder das redes sociais: DGTL apaga perfil de SP depois de críticas

Claudia Assef

2013-05-20T19:00:33

13/05/2019 00h33

Um dos festivais de música eletrônica mais respeitados do mundo, o holandês DGTL fez uma retratação pública após a realização de sua terceira edição em São Paulo, no último sábado (4). O festival se posicionou depois que o performer francês Loïc Koutana publicou um vídeo em seu Instagram relatando a precariedade de seu camarim bem como a truculência com que foi tratado por integrantes da equipe do festival. 

Visualizar esta foto no Instagram.

 

@dgtlfestival RESPEITAM TODOS OS ARTISTAS POR FAVOR! / #DGTL RESPECT ALL YOUR ARTISTS PLEASE. ✊ EU NÃO SEI COMO FAZER UM PROCESSO JUDICIAL. Porém acho que seria o mínimo que posso fazer por respeito a meu corpo e pra meus colegas. ANO PASSADO ACONTECEU A MESMA COISA COMIGO E MEUS COLEGAS @euviraaa @anagiza @valentudo @vaimalanda ( entre outras ): camarim insalubre, falta de consideração, IMPOSIBILIDADE DE SUBIR NO PALCO ( ano passado, tenhamos que improvisar uma performance na hora dentro do público, pois estavamos montadas e queríamos honrar nossa parte do contrato – ESSE ANO NÃO ACHEI A FORÇA DE LUTAR ( só ) para performar. @aunhelden , (que tenha que entrar no palco na segunda parte do after) também não conseguiu performar ontem, aprendi isso agora… Cês vão me falar, mas porque vocês toparam trabalhar de novo? As oportunidades para bailarinos são raras e sendo minha profissão preciso trabalhar como qquer colega artista. Além disso, ACREDITO QUE AS PESSOAS MUDAM, depois de tanta reclamação o ano passado achei que eles iam a vir com um plano marketing melhor para reconquistar o público brasileiro. DE FATO, ( nos mails ) esse ano eles prometeram condições adequadas, estruturas, aumentaram até o cachê. Foi um ERRO da minha parte achar que ia ser diferente esse ano. NEM QUERO MENCIONAR QUESTÃO DE COR. Mas acho que isso foi claro! Meu corpo foi desrespeitado. E COMO ARTISTA E PROFISSIONAL ACHO FUNDAMENTAL EU ME POSICIONAR.

Uma publicação compartilhada por Loïc Koutana (@lhommestatue) em

Segundo relatos de Loïc, outros performers foram igualmente tratados de forma desrespeitosa. Depois da publicação de seu vídeo, a página do evento recebeu centenas de comentários negativos, que pediam respeito aos artistas locais, mas também reclamavam das péssimas condições dos banheiros, falta de ventilação nas pistas, preços no bar etc. Em algumas horas, o link do evento foi tirado no ar e depois, na página do DGTL Holanda, um comunicado escrito em português se justificava com o público:

"Chegou ao nosso conhecimento que experiências contrárias aos padrões do DGTL foram relatadas por artistas performers brasileiros. Estamos chocados, lamentamos muito pelo ocorrido e nos certificaremos de que isso nunca ocorra novamente. Para o DGTL é muito importante que todos se sintam confortáveis, independentemente da raça, gênero ou sexualidade, pois acreditamos numa sociedade inclusiva.

Nós conversamos com os artistas envolvidos, Loïc Koutana e AUN. Juntos, concordamos que a falta de comunicação e mal-entendidos de nosso lado foram claramente fatores cruciais e estamos envergonhados por isso ter acontecido. Nunca houve intenção de excluir ninguém.

Como festival DGTL nós devemos e queremos entender melhor a cultura brasileira. Por isso, decidimos que viajaremos para o Brasil para um encontro com os artistas e suas comunidades, para ter um diálogo aberto e iniciar uma colaboração próxima para eventos futuros. Reconhecemos a importância destes artistas no festival DGTL em São Paulo. Além disso, nós os convidamos para se apresentarem no DGTL Barcelona em agosto. Eles aceitaram nosso convite e estamos ansiosos por sua performance. Garantiremos que eles recebam o tratamento e o respeito que merecem.

Como estamos constantemente tentando melhorar nossos eventos, enviaremos uma pesquisa para todos os participantes, para obter uma maior compreensão do que nosso público gostou e não gostou no DGTL deste ano em São Paulo, para que possamos agir onde for necessário para criar a melhor experiência."

A retratação com os artistas não fez, porém, com que as reclamações sobre a estrutura do evento diminuíssem. De fato, a experiência para quem foi ao festival não foi das melhores em diversos aspectos, apesar do line-up maravilhoso. Aliás, mais doloroso ainda não conseguir aproveitar uma curadoria artística tão rica por conta de problemas de infra-estrutura. Uma pena. Para um festival que ganhou fama internacionalmente como um dos eventos mais sustentáveis do mundo, fica mais complicado ainda, pois o que vimos foram pontos frágeis na infra-estrutura básica, como os banheiros e a ventilação. Como eu sempre digo, não é porque o som é underground que o banheiro pode ser descuidado. A mesma coisa com relação ao som de algumas pistas, que, de diversos pontos, era simplesmente uma massa sonora.

Certamente para 2020 o festival vai ter que ajustar muita coisa, graças a todo mundo que botou a boca no trombone. Caso parecido com o do Lollapalooza, que também sofreu fortes críticas após a publicação de uma matéria que falou com moradores de rua que trabalharam turnos de 12 horas na montagem do festival por R$ 50. A página do Lolla foi alvo de inúmeros comentários negativos, questionando os motivos de um evento que chega a cobrar R$ 1.400 por um ingresso pagar tão pouco a seus trabalhadores.

Um festival não pode ser bonito só nas fotos do Instagram. Os eventos precisam ser coerentes com seus propósitos, do começo ao fim. A internet está de olho.

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.