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House Dancers, como vivem, o que comem, como dançam tão bem?

Claudia Assef

10/08/2019 21h49

Quem não conhece house music bom sujeito não é. O gênero musical nasceu nos anos 80 em Chicago, migrou para Nova York e, a partir daí, foi abraçado pelo mundo, fazendo gente suar a camisa nas pistas de dança e dando origem a subgêneros diversos, dos mais comerciais, como a eurohouse, até os mais cabeçudos, como a microhouse. Na linha do tempo, daria pra listar mais de uma dúzia de subgêneros que têm na linhagem a matriz criada no clube Warehouse, em Chicago, pelas mãos do DJ Frankie Knuckles.

Mas, como você leu no título, este texto fala de house dance, ou "dança house", um modalidade de dança que chegou no Brasil no início dos anos 2000 graças a alguns precursores e que cada vez mais tem conquistado um lugar de destaque no universo das danças urbanas.

Os DJs Rafa Moraes, Mari Rossi e Artur Viegas, da festa Friends Casa

Minha primeira vez numa festa de house dance foi na Friends Casa, com os DJs Mari Rossi, Rafa Moraes e Artur Viegas, alguns domingos atrás. Qual não foi minha surpresa quando entrei na festa e as pessoas estavam molhadas de suor, fazendo seus passos super-elaborados, mega concentradas num objetivo único, dançar. Pensei: "será que me arrisco também, na frente desses profissas?". A vibe é tão plena que você nem liga que vai passar vergonha fazendo seus passinhos rudimentares diante dos bailarinos. Dane-se, o que importa é dançar e ser feliz. Uma retorno ao início de tudo, onde não tem espaço para celular, papinho, encher a cara. Dançar é revigorante, do jeito que você quiser/puder.

Pra quem vem de um background onde pose, carão, e outros elementos alheios à pista contam tanto, participar de um evento de house dance é uma experiência antropológica. É sentir a importância da dança em primeiro plano, muito à frente dos outros elementos que te fazem ir à uma festa (a birita, os amigos, a paquera). Numa festa de house dance, a música é fundamental, mas não é o mais importante. O DJ funciona como um facilitador para que a grande magia aconteça na pista, com o corpo e a alma em sintonia. É como um ritual de positividade, de alto astral, marcado por coreografias que misturam passos de frevo, break, vogue, balé e muito mais.

HOUSE DANCE NO BR

O início da house dance no Brasil remonta a 2002 quando o dançarino André Pires teve acesso a fitas VHS da dança e começou a treinar. No ano seguinte, os dançarinos Karl Kane Wung, da França, e Storm, da Alemanha, vieram para o Brasil e deram a primeira aula do estilo. "Uns amigos meus da Companhia Discípulos do Ritmo fizeram contato com eles, e então aconteceu a primeira aula de house dance no Brasil, na zona norte de São Paulo", conta André Pires, conhecido como André Rockmaster desde 2007 por causa do nome de sua festa, uma das mais conhecidas do país.

André Rockmaster, um dos pais da house dance no Brasil

Em 2004 aconteceu o primeiro workshop de house dance em Curitiba, dentro de um evento de danças urbanas. "Daquele ano em diante a dança house começou a se espalhar pelo Brasil, graças a esforços de dançarinos como o Edson Guiu, que se juntou a mim nessa batalha", conta André.

Se juntaram a eles nomes como a professora de dança Tati Sanchis, dona de duas escolas, e Nenê, responsável pelo Encontro House Brasil, evento que passa por várias cidades brasileiras levando batalhas, showcases e bate-papos com professores e DJs. A etapa São Paulo do encontro acontece neste domingo (11), no Centro Cultural Olido.

A dançarina Tati Sanchis, dona de duas escolas em São Paulo

"Eu já gostava da música e quando alguns colegas, como o André Rockmaster e o Guiu, eu pediu pra eles me mostrarem. Eu já era envolvida com a dança wacking. Quando eu cheguei em Nova York, tinha muita coisa de house rolando. Tinha uma comunidade forte, muito democrática. Acabei me envolvendo de uma forma muito forte porque fui muito acolhida. Quando você pensa em hip hop por exemplo você imagina um personagem, uma roupa. Na dança house não tem isso, essa dança aceita todo mundo", diz Tati Sanches, hoje um diferencial importante. "E finalmente é uma dança muito feliz, tem mensagens muito positivas. Essa dança me pegou desde o começo. Me pegou em cheio. E hoje temos uma cena muito legal aqui também", diz uma das professoras mais influentes do país.

Sobre os movimentos em si, Nenê, criador do Encontro House Brasil, define alguns conceitos que estão inseridos na house dance: "house é uma mistura de diferentes ritmos, principalmente das culturas afro-americanas e latinas, desde salsa, merengue e cha-cha-cha, até influências de samba, capoeira e jazz", diz Nenê.

"Comecei a frequentar as aulas do professor de house dance Hugo Campos, na escola da Tati Sanchis, comecei a ir em batalha e, claro, festas. Fiz a festa de lançamento da minha música Danza na Friends Casa. Daí comecei a tocar em encontros de house e tem sido sensacional", diz Mari Rossi, uma das DJs que foram acolhidas pelo movimento.

 Mari Rossi em Danza

"Pra mim foi uma redescoberta na minha carreira. Pista legal, animada, a gente sempre teve. Mas sempre teve outros fatores. No caso deles é só o amor pela música mesmo! Pra eles, bebida, paquera, outras coisas, não significam nada. Quando eles começam a dançar, gera uma energia tão contagiante, que suga qualquer um, é incrível, me deu um novo fôlego", diz Mari, que resume de uma forma linda: "foi um presente na vida".

Acreditem na Mari, o bagulho é doido. Quem quiser tirar a prova aí embaixo vão alguns eventos:

ENCONTRO HOUSE SÃO PAULO

Domingo, 11 de agosto, a partir das 16h
De R$ 5 a R$ 10
Sala Paissandu
Av. São João, 473, Centro
Grátis

ROCKMASTER ESPECIAL COM ARCHIE BURNETT(NYC)
Quarta, 18 de setembro, das 18h às 21h
Vitrine da Dança
Av. São João, 473, Centro
Grátis

FRIENDS CASA
Domingo, 13 de outubro, a partir 15h
(aula de house dance das 16h às 17h)
Vitrine da Dança
Av. São João, 473, Centro
Grátis

ROCKMASTER
Domingo, 27 de outuburo, a partir das 15h
Vitrine da Dança
Av. São João, 473, Centro
Grátis

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.