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Capslock faz 8 anos de resistência, line-up do aniversário está incrível

Claudia Assef

16/01/2019 11h44

Estamos em 2019, quase fechando uma década em que a música eletrônica basicamente só cresceu e brilhou no Brasil e no mundo, certo? Sim, mas é sempre bom lembrar quem ajudou a construir os alicerces do que hoje a gente entende como noite, e é aí que eu quero chegar, nos primórdios da festa Capslock, que nesta sexta (18) completa oito aninhos muito bem vividos.

Tudo começou no prédio de todas as festas, a Trackers (quem nunca dançou ali bom sujeito não é), no Centro de São Paulo, em 2010. Com um DJ bem provocativo e pesquisador no front, Paulo Tessuto, e uma equipe de produtorxs, performers e residentes que formaram uma família nada convencional, a Capslock começou a ganhar nome fazendo noites memoráveis em vários endereços, muitas delas de graça, e na rua.

Ex-jogador de basquete do clube Pinheiros, Tessuto começou a discotecar há 11 anos e logo de cara já criou uma festa própria, a Plastik, ao lado de Pedro Lattari. Daí em diante não parou mais de produzir noites em que a tônica é a tríade diversão, liberdade de expressão e humor.

Tessuto, o DJ, começou a tocar montado de vez em quando, e inclusive chamou amigos para tocar vestidos de mulheres, entre eles L_cio, que é sócio e residente da festa. Ao longo desses anos, a noite passou por lugares grandes, como a Fabriketa e o Cine Marrocos, trouxe gringos dos grandões, tipo Isolée e Sebastian Voigt, e sempre manteve forte a pegada do humor em sua comunicação.

Tessuto: do basquete pra cabine do DJ

Um nerd usando óculos fundo de garrafa foi escolhido pra ser o ícone da Caps e virou personagem de camisetas e zilhões de flyers. Carlos Capslock, o personagem criado pelo DJ e produtor Paulo Tessuto, está há 8 anos fazendo a noite ficar mais divertida – e olha que a concorrência de festas está forte na cidade!

Além das noites em galpões, como o icônico da rua Deocleciana, a festa trouxe novidades, como workshops gratuitos e até feira orgânica! Na próxima sexta, Tessuto junta um time fortíssimo pra comemorar os oito anos com ele na cabine: o produtor Gui Boratto, nome fortíssimo da música eletrônica brasileira, ANNA, a paulista que ganhou o mundo e hoje arrebenta de vender tracks maravilhosas de techno e toca em tudo que é lugar legal, além de Caio Taborda, da Gop Tun, o residente L_cio, e o alemão Sebastian Voigt, um ícone do techno. Fiz três perguntinhas pro Tessuto, pra entender o que se passa nessa cabecinha ao comemorar oito anos de Capslock.

Lá se vão 8 anos desde a primeira Capslock e quanta coisa mudou no cenário da noite, né? Como você acha que ajudou nesse transformação?

Paulo Tessuto – Pois é, oito anos! Só quando essas datas comemorativas chegam é que a gente se dá conta de como as coisas acontecem rápido. A noite sempre esteve e sempre vai estar em eterna transformação, a necessidade de explorar o novo e o desconhecido está no nosso instinto, né? Eu acho que essas mudanças que ocorreram nos últimos 10 anos têm influências de várias pessoas. A primeira festa foi a Voodoo Hop (da qual eu fazia parte), que comemora 10 anos este ano. Dois anos depois, surge a Carlos Capslock, precisamente dia 15 de dezembro de 2010. Eu acho que a minha colaboração foi começar o primeiro projeto independente que só tocava música eletrônica, disco, house, techno, electro. Daí pra frente acredito que muitos produtores perceberam que era possível fazer seus próprios eventos e experimentar. Também ajudamos a achar novas locações pela cidade, criamos uma metodologia de produção em conjunto com outras pessoas e muitas vezes até outros coletivos, que serviu de inspiração para outras festas.

Fazer festa não é tão fácil quanto parece, diz Tessuto, que começa seus eventos torcendo para que a conta feche

Dá pra sentir a evolução da festa nas mais diferentes frentes, da cenografia aos lineups. Se dinheiro não fosse uma questão (as benditas planilhas!), como seria a Capslock dos seus sonhos?

Paulo Tessuto – A gente sempre busca evoluir e inserir novas ideias na festa. O conceito da reinvenção está enraizado na Carlos Capslock. Seria na antiga fábrica da Antártica, três dias de festa. Line-up com headliners e novos talentos do Brasil e do mundo. Cinco pistas, cenografia e ambientação que vocês já conhecem. Seria ótimo começar um evento sem ter que se preocupar se você vai tomar um prejuízo de R$ 10, 30, 50 mil. Eu acho que isso é uma coisa que as pessoas que frequentam as festas precisam começar a entender. Fazer festa é muito arriscado e custa muito caro. É muito importante que as pessoas deem suporte para o rolê que elas curtem. Paguem entrada, consumam no bar. Quando você abre sua festa você já começa devendo R$ 100, 200, 300, 500 mil e você só tem algumas horas para pagar essa conta. Não é um trabalho tão fácil quanto parece.

Nos últimos anos, o som mais underground foi descoberto por festas que antes trabalhavam com música bem mais mainstream. O under ficou pop?

Paulo Tessuto – Acho que essa palavra underground é muito difícil de se usar. Você está nas redes sociais? Então você não é mais underground. Claro que cada festa tem o seu estilo e umas são menos comerciais do que as outras mas, para mim festa underground são aquelas que não estão na internet e você só fica sabendo através de boca a boca e flyer. Que o local só sai no dia e que muitas vezes precisa fazer uma viagem pra chegar ao local. Elas ainda existem?

Eu acho que todo trabalho bem feito tende a ficar pop (no sentido de ser muito conhecido por todo tipo de gente). As pessoas ficam sabendo e querem conhecer o seu trabalho. Acho inútil lutar contra isso se você faz um bom trabalho. Eu sempre fui contra essa idéia de segregar e querer ser sempre puro "under", mesmo que não seja pelo motivo que já citei acima. A vida é feita para se compartilhar e na Carlos Capslock todos são bem-vindos.

 

CAPSLOCKS 8 JAHRE
Sexta, 18 de janeiro, a partir das 23h
Line-up: ANNA, Caio Taborda, Gui Boratto, L_cio, Sebastian Voigt, Tessuto
Visuais: Felipe Chianca, Gunther Rocha Ishiyama, Hugo Perucci, Juan Assis e Modular Dreams
Performers: Alex Honda, Elloanigena Onassis, Euvira Euvira, Hura.Lunus, Kitty Kawakubo, Ronalda Bi
Ingressos a partir de R$ 30, na porta, R$ 70

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.