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Björk dança no escuro com você na mostra que abre nesta terça no MIS

Claudia Assef

18/06/2019 16h10

Lá estava eu morando sozinha em Paris, trabalhando como correspondente da Folha de S. Paulo, num frio de rachar, longe da família e dos amigos. O ano era 2000, e o filme Dançando no Escuro, do diretor Lars von Trier, arrastava milhares de fãs da cantora islandesa Björk, eu inclusive, ao cinema para ver como ela se sairia como atriz.

No filme, Björk é a protagonista, Selma, uma imigrante da ex-Checoslováquia que trabalha como operária numa fábrica americana na década de 60. Por causa de uma doença congênita, ela está perdendo a visão, assim como seu filho. E Selma tem um objetivo na vida, juntar o dinheiro necessário para a operação do filho. Como colega de fábrica, está ninguém menos que Catherine Deneuve.

Desculpe o spoiler se você não viu o filme, mas é a coisa mais triste deste planeta. Me lembro de ter tido uma crise de choro na sala de cinema, que se estendeu pelo caminho que percorri de bicicleta até chegar em casa, a ponto de um guarda me parar na rua pra perguntar se estava tudo bem (dramática, ela).

Não vou contar a história, mas o que mais emociona no filme é sem dúvida a interpretação de Björk, que inclusive rendeu a ela a Palma de Ouro como Melhor Atriz em Cannes (em 2000). Não causa espanto a quem acompanha a trajetória dessa islandesa que conseguiu juntar o exótico e a vanguarda e embalar em invólucros tão pop que ela se tornou um dos nomes mais adorados da música mundial.

O dom da interpretação é algo que você verá bem de perto na mostra Björk Digital, que entra em cartaz nesta terça (18) no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Como diz o nome da exposição, não vá esperando memorabilia, discos, partituras ou fotos antigas, como oferecia, por exemplo, a mostra de David BowieBjörk Digital é totalmente focada na capacidade da multiartista de fundir música, artes visuais e tecnologia, algo que sempre foi a marca registrada dela.

Sempre na vanguarda dessa tríade de música, arte visual e tecnologia, Björk surge em videoclipes imersivos, que misturam realidade virtual e gravações em 360 graus. Os clipes de seis músicas do álbum Vulnicura, de 2015, são apresentados em salas escuras, equipadas com bancos giratórios, óculos de realidade virtual e fones de ouvido. O álbum inteiro fala da dor do divórcio da cantora com o artista plástico Matthew Barney, e as faixas se alternam entre processo de cura, isolamento, frustração, renascimento… Com os óculos e fones de ouvido, a exposição convida para um momento cara a cara com Björk e suas muitas expressões, figurinos incríveis, harmonias improváveis e efeitos visuais perturbadores.

É impressionante ver a tecnologia aplicada em Quicksand, vídeo rodado em 360 graus de uma performance ao vivo de Björk em Tóquio, capturada em realidade virtual aumentada. Ali a cantora parece realmente ter descido de uma espaçonave direto para o palco, fazendo filmes de super-heróis em 3-D parecerem trabalho de escola.

Em Mouth Mantra, fazemos uma viagem por dentro da boca da cantora, representando uma cirurgia que ela fez para tratar um problema nas cordas vocais. Dirigido pelo artista visual Jesse Kanda, conhecido por fazer imagens para o produtor venezuelano Arca, o vídeo é um dos momentos que causam um pouco de vertigem aos mais sensíveis.

Mas a experiência mais divertida da visita é a imersão na cabine que contém as músicas Family e Notget. Combinando imagens 3-D, controles interativos e captura de movimentos, é possível chegar bem perto da Björk virtual, que dança, se ajoelha e, de repente, passa por dentro da gente como se fosse um fantasma. Com minhas mãos virtuais, fiz carinho na cabeça e abracei Björk, certamente minha única oportunidade de fazer isso na vida.

Somando todas as salas imersivas, aonde só se entra em grupos de umas 15 pessoas, o tempo total das experiências em vídeos ultrapassa 80 minutos. Além disso, o visitante ainda pode brincar com o aplicativo do álbum Biophilia em vários tablets distribuídos numa mesa enorme. Antes de sair, uma sala repleta de pufes exibe um pot-pourri de vários clipes da carreira da cantora.

Essa passeio imersivo pela carreira da nossa islandesa preferida pode ir além se você resolver estudar Björk mais a fundo, frequentando o curso Björk: Paradigmas do Pós-Humanismo.exe, que acontece em julho no MIS, e sobre o qual já falei aqui.

BJÖRK DIGITAL
18 de junho a 18 de agosto
Terça a sábado, das 10h às 20h, domingos e feriados, das 10h às 19h
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)
MIS (Av. Europa, 158, Jardim Europa, SP)

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.