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Exposição em SP traz obras de arte em que o tema central é o disco de vinil

Claudia Assef

27/04/2019 14h44

O vinil exerce uma papel fundamental na música. Quer você seja um aficcionado pelo formato ou não, certamente já foi impactado pelo universo das bolachas de petróleo. Com a morte decretada do formato CD, o vinil não para de bater recordes neste seu retorno triunfal, segurando a relevância da venda de música no formato físico, à frente do digital (downloads), só perdendo para o furacão que é o mercado de streaming (dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica divulgados esta semana).

O fetiche do vinil se desdobra além da música e um belo exemplo disso é a exposição Lado B: O disco de vinil na arte contemporânea brasileira, que estreou na última sexta (26) no Sesc Belenzinho e fica em cartaz até dia 30 de junho com entrada gratuita.

Obra de Chiara Banfi, CBS, da serie Discos Vazios (2013-2014). Foto Edouard Fraipont

Com curadoria de Chico Dub, carioca que apronta há dez anos o ótimo e atrevido festival Novas Frequências, e coordenação geral de Luiza Mello, a exposição coletiva reúne 61 obras de mais de 30 artistas visuais e sonoros do país, mostrando toda ampla gama de usos do disco de vinil enquanto material estético de intervenção sonora, física, conceitual, ritualística e poética.

"Lado B realiza um importante papel na aproximação da música com as artes contemporâneas. Convidar o visitante do museu para, além dos olhos, usar os ouvidos tem se tornado uma constante. O som, em si mesmo, devido a avanços na tecnologia e, também, pelo desejo de ultrapassar os limites da experimentação, passou a ser reconhecido e exibido como arte", diz Chico Dub.

A obra The Record, de Felipe Barbosa, traz o vinil como um retrato da individualidade e orgulho da propriedade

O visitante encontra na mostra instalações sonoras e interativas, pinturas, esculturas, discos conceituais, vídeos, fotografias, manipulações sônicas e objetos-instrumentos. As obras de Thomas Jeferson e Xico Chaves, por exemplo, criticam a obsolescência dos bens de consumo duráveis.

A exposição também apresenta comentários políticos (presentes nos trabalhos de Fabio Morais, Pontogor, Romy Pocztaruk e Hugo Frasa), gambiarras tecnológicas (nas vitrolas preparadas pela dupla O Grivo e na foto de Cao Guimarães), reflexões sobre a morte (na instalação de Gustavo Torres), o orgulho da propriedade e o disco como retrato da individualidade (na obra de Felipe Barbosa). Já o artista plástico Cildo Meireles utiliza osciladores de frequência para esculpir topologias sonoras em forma de fita de Moebius e espiral no trabalho Mebs/Caraxia (1970-1971). Já Sal Sem Carne (1975) discute as relações entre as culturas indígena e portuguesa, a partir de uma espécie de radionovela.

A obra Sal Sem Carne, de Cildo Meireles, de 1975, em exposição no Sesc Belenzinho

Ainda nesse contexto, a obra Disco contendo o som de sua própria gravação (2014), de Gustavo Torres, apresenta apenas os registros sonoros presentes na produção do próprio vinil, sem interferências externas. E em Record: The Space Between (1971), Antonio Dias grava dois sons contínuos e intermitentes: um despertador e a respiração humana. Conhecido por trabalhar com mídias sonoras variadas, o coletivo Chelpa Ferro marca presença com um trabalho sonoro em vinil e com uma colagem escultórica de fitas cassete.

Cao Guimarães e sua obra Gambiarra (cortesia do artista e da Galeria Nara Roesler)

Além das obras, integram a exposição a Oficina de Sampleamento Radical, um workshop e performance coletiva organizada por Alexandre Fenerich, nos dias 3 e 4 de maio; Chelpa Ferro apresenta um set inédito na sua carreira, utilizando como matéria-prima os discos favoritos de sua coleção, no dia 11 de maio; Alguns discos desta exposição sobrepostos e justapostos, de Gustavo Torres, se utiliza de diversos "discos de artista" presentes na exposição, no dia 8 de junho; e Narva 1 ao Vivo, de André Damião, no encerramento, no dia 30 de junho.

LADO B: O DISCO DE VINIL NA ARTE CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA

De terça a sábado, das 10 às 21h; domingos e feriados, das 10h às 19h30 (até 30 de junho)
Grátis
SESC BELENZINHO
Endereço: Rua Padre Adelino, 1000.
Belenzinho – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 2076-9700

Curadoria: Chico Dub
Coordenação Geral: Luiza Mello

Artistas e coletivos convidados: Alan Adi, André Damião, Antonio Dias, Barrão, Bernardo Damasceno, Brígida Baltar, Cao Guimarães, Chelpa Ferro (Luiz Zerbini, Barrão e Sergio Mekler), Chiara Banfi, Cildo Meireles, Daniel Frota, Dora Longo Bahia, Fabio Morais, Felipe Barbosa, Fernando Velázquez, Gustavo Torres, Hugo Frasa, Letícia Ramos, Marepe, Marssares, O Grivo (Nelson Soares e Marcos Moreira), Paulo Bruscky, Pontogor, Rádio Lixo (Juliana Frontin, Joaquim Pedro dos Santos, Cainã Bomilcar e Abel Duarte), Rafael Adorján, Rivane Neuenschwander, Romy Pocztaruk, Thiago Salas, Thomas Jeferson, Vivian Caccuri, Wagner Malta Tavares, Walter Smetak, Waltercio Caldas e Xico Chaves

 

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.