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Shows na janela, lives, política. O que vai salvar a indústria musical?

Claudia Assef

23/03/2020 13h26

Se você não passou os últimos 20 dias na Lua, deve estar se perguntando o que o Coronavírus vai deixar como legado na sua área de atuação – e, mais ainda, na sua vida. Verdade que a doença chegou com os dois pés na porta em todos os campos profissionais, mas, no mercado da música, o baque foi (e vai ser por um bom tempo) gigantesco. Afinal de contas, esse é um setor em que basicamente tudo gira em torno de uma boa aglomeração, palavra que foi riscada do caderninho por tempo indeterminado.

Com o prognóstico do Covid-19 cada vez mais assustador, a profilaxia mais eficiente e séria é o isolamento coletivo e isso impacta diretamente quem vive da indústria criativa. Eu mesma fui diretamente impactada. Na quinta-feira, 12, eu e minha sócia, Monique Dardenne, soltamos comunicado avisando sobre o adiamento da WME Conference, que aconteceria nos 27, 28 e 29 de março em São Paulo. Felizmente, as perdas não foram muito grandes (algumas passagens já emitidas e não reembolsáveis), os patrocinadores toparam seguir com a gente na nova data sugerida (junho) e estamos remarcando com as mesmas artistas e profissionais.

No dia 13 de março, sexta, o Governo do Estado de São Paulo publicou decreto suspendendo todas as suas atividades presenciais: shows, peças, saraus, oficinas, festas. Desde então, exceto pela manifestação em prol do presidente Bolsonaro, que aconteceu no domingo passado (15), turnês, festivais e shows foram postergados, teatros foram fechados, aniversários e casamentos, jogados pra frente. Única atitude cabível em tempos de Corona.

Segundo pesquisa de Impacto Covid-19 do Data SIM, instituto ligado à conferência SIM São Paulo, mais de 16 mil profissionais foram diretamente impactados e cerca de 5 mil eventos de música no Brasil foram cancelados ou adiados, gerando um prejuízo em torno de R$ 400 milhões.

A realidade de quem vive de lotar casas de shows, teatros, estádios, clubes, ginásios esportivos etc. ruiu diante de uma doença que tem como maior catalisador a aglomeração de pessoas. Grupos de Whatsapp do mercado da música entraram em parafuso tentando se mobilizar para tentar achar saídas.

COMITÊ DE CRISE

A empresária Amanda Souza, que cuida das carreiras de Ana Cañas, entre outros artistas, articulou um grupo de profissionais na formação do Comitê de Crise da Música. Criado há poucos dias, o grupo já conta com mais de 300 membros do Brasil inteiro que se comunicam usando a plataforma Telegram. "O grupo nasceu para reunir pessoas para trocar informações e propor ideias sobre como fazer a cadeia ser minimamente rentável num momento em que o nosso trabalho está inviabilizado", diz Amanda.

No grupo há produtores, donos de casas de shows, artistas, empresários, profissionais das redes sociais e da imprensa. "A ideia é nos mobilizar em nome do setor. A partir dessas trocas, a intenção é que o Comitê redija uma carta à secretária Regina Duarte, com medidas urgentes para tornar a vida dos profissionais menos angustiante nesses meses", diz a empresária.

Entre as ideias do grupo estão o diferimento do recolhimento dos impostos, fomento direto para o setor da música, suspensão das contas básicas para músicos, seguro-desemprego para quem tem MEI na área da Cultura, entre outras. A carta aberta criada pelo grupo, em formato de petição online, foi publicada nesta segunda-feira (23) e pode ser assinada aqui. Além disso, Amanda tem buscado apoio de marcas para rentabilizar conteúdos online. Para participar do grupo, clique aqui.

FESTIVAIS EM CASA 

Numa sociedade viciada em internet e que tem a vida noturna como ponto de encontro ao vivo, o confinamento em casa, além dos impactos financeiros para quem depende disso para viver, tem impactos psicológicos também.

No intuito de manter a sensação de assistir coletivamente a apresentações ao vivo, foram criados em tempo recorde projetos bem interessantes. O festival Abre a Janela aconteceu no fim de semana (21 e 22) com shows online de Josyara, Filipe Catto, Ekena, Majur, Bia Ferreira, entre outros.
Josyara tocando no Abre a Janela

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a flor de maracujá

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Pensado por um coletivo de artistas, bookers e a rede Mídia Ninja, inspirados por um evento português, o festival Fico em Casa começa amanhã (24) e vai até sexta (27) transmitindo mais de 70 apresentações nas casas dos artistas. Entre os confirmados estão Luedji Luna, Dudu Nobre, Rennan da Penha, Bia Ferreira, Daniela Mercury, Rael, Maria Gadú, Urias, Adriana Calcanhoto, B-Negão, Emicida, Boogarins, entre outros. Siga o festival no Instagram e fique por dentro de todas as atrações.  

 

A gravadora Universal também lançou sua plataforma de shows caseiros, o Festival Música em Casa, com artistas como Sandy, Melim e As Bahias e a Cozinha Mineira. Os começaram dia 20 e vão até 29 de março. Conheça horários e line-up completo aqui.

Se você quiser mergulhar em shows internacionais, este link da revista Billboard traz um lista atualizada das apresentações que irão acontecer nos próximos dias. Hoje (23) por exemplo dá pra pegar um show da Miley Cyrus no Instagram.

Arte de divulgação do show de Miley Cyrus no Instagram

O formato não é novo, há anos estamos habituados a ver sessions com nossos ídolos no conforto de casa. A diferença é que agora assistir do sofá não é somente uma escolha, senão uma das poucas alternativas de entretenimento ao vivo. Outro projeto interessante é o Janelas de São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultural de São Paulo. O projeto prevê a contratação de 8.000 shows dos mais diversos gêneros musicais para se apresentarem de janelas e sacadas da cidade, com disponibilização dos conteúdos online. O projeto integra o Cultura Presente, uma série de ações que visam diminuir o impacto da pandemia sobre os artistas. Além do Janelas de São Paulo, o programa prevê prolongamento de prazos contratuais para garantir pagamento aos artistas de eventos adiados e fomentos. Na sexta (20), quando foi divulgado, o festival sofreu críticas por ter anunciado seu investimento, de R$ 10 milhões. O edital Janelas de São Paulo foi alvo de uma Ação Popular e está temporariamente suspenso pela Justiça.

Alê Youssef, deixará a cadeira de Secretário de Cultura no próximo dia 2/5, está por trás das ações. Ele também lidera o Bloco da Cultura, um coletivo de articuladores que pretende botar a cultura no eixo central de desenvolvimento econômico e social do Brasil.

Assistindo atentamente a toda essa movimentação, Pena Schmidt, um dos produtores musicais e ex-executivo de gravadora mais importantes do Brasil, acredita que "a música" vai dar a volta por cima. "Tem tudo pra dar certo, mas os músicos, os técnicos, o povo da graxa, da montagem, vão precisar comer. A comunidade é incrível e produtiva, mas totalmente desestruturada, sem lobby e perseguida politicamente", diz Pena.  "Se o governo barroco sair do transe e irrigar a economia com dinheiro de helicóptero, que é o que o resto do mundo está fazendo, esse dinheiro vai correr pela internet, e a música vai estar lá, num bom lugar. Claro que muita gente vai ter que mudar sem perder o chão", analisa.

AULAS ONLINE

Paulo Tessuto, criador da Capslock, criou um curso online de discotecagem

Pressionar governo é fundamental, mas leva tempo. Os boletos não param de pingar e é preciso botar comida na mesa. Muita gente já começou a ser reinventar, e olha que mal começamos a quarentena forçada. É o caso do DJ Paulo Tessuto, criador da Capslock, festa que movimenta cerca de 2.000 pessoas de público e quase 200 pessoas trabalhando a cada edição. Em tempos de Corona, ele lançou um curso online de discotecagem. O curso, dividido em quatro módulos, contempla equipamentos, técnica e percepção, técnicas de pesquisa e como desenvolver o seu próprio estilo, além de história da música eletrônica. O valor é R$ 1.200 e os interessados podem mandar e-mail para o professor. O produtor musical L_cio, nome muito querido das festas eletrônicas, também vai dar curso focado em finalização de músicas.

Além de cursos personalizados como os de Tessuto e L_cio, várias instituições disponibilizaram aulas online, muitas delas gratuitas. Uma ótima oportunidade para usar o tempo livre das próximas semanas aprendendo algo novo. A Harvard, por exemplo, liberou 100 cursos com emissão de certificado, em 14 áreas, história até artes e design. A FGV liberou 55 cursos nas áreas de negócios, veja a lista aqui. A Casa do Saber também liberou vários cursos, entre eles (acabei de me inscrever no de Música Popular, ministrado por Zuza Homem de Mello). O site Razões para Acreditar compilou uma lista enorme de serviços gratuitos que estão sendo oferecidos nesses tempos de corona, só clicar aqui.

Vamos sair dessa! Cuidem-se!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Claudia Assef é uma das mais respeitadas especialistas em música do país. É publisher do site “Music Non Stop” e ao lado de Monique Dardenne fundou o “Women's Music Event”, plataforma de conteúdo e eventos que visa aumentar o protagonismo da mulher na indústria da música.

Sobre o blog

Um espaço para falar sobre descobertas musicais, novidades, velharias revisitadas, tendências e o que está rolando na música urbana contemporânea, seja na noite ou nas plataformas de streaming mais próximas de você.

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